MEDO DO QUE FOI E DO QUE PODERÁ SER

 Medo do que foi e do que será. 
Medo do imaginário e do que é real.
Medo de amar e de perder quem se ama.
Medo que aperta o peito e sufoca a alma.
Medo de sofrer, da inevitável dor de amor.
Se o amor for mesmo o mais nobre sentimento, 
Então é belo sofrer por ele. Sinceramente não sei se é bom.
Em todo caso, há também beleza na dor do boêmio, que se tortura voluntariamente até ao âmago de sua alma após a perda  da amada. 
Há quem diga que bobagem esse assunto de medo do amor. Que se tenha então  coragem de amar e assumir o risco de sofrer, como faz um romântico convicto, mas não precisa ir tão a fundo, para não correr o risco também de se tornar um viciado em amor e dor. 
Estranho afirmar que o medo pode se tornar gigante, mesmo sendo de uma coisa considerada banal por muitas pessoas. Conheci gente que sente um terrível pavor diante de uma borboleta, que para a maior parte das pessoas, ao menos as que conheço, a enxerga como um animal frágil, sensível e encantador. Lucidez e loucura são separadas por uma tênue fronteira tão débil que elas se misturam na maior parte das horas do dia em meio a essa multidão de gente que vagueia pelas calçadas da cidade.
Medo muitas vezes atravessa as noites insones. Ela passa lentamente  por toda a noite a torturar o ser apavorado, o dominando a cada segundo, aterrorizando a alma durante as horas que parecem infinitas. É estranho isso, como também é real.
Medo que a mente exagera e a cria. 
Medo que lhe prepara para o que será da próxima manhã ou da próxima noite. Do que será real ou do que  não passará de meras fantasias.
Medo às vezes  é apenas um absurdo e sem sentido. Também, às vezes tem sentido e motivações mais fáceis de compreensão. 
Além do mais, inevitavelmente, amanhã todos serão nada mais. 
Talvez sejam ainda alguma coisa por algum lapso de instante ou lembranças mais duradouras para alguém. Porém, chega-se o dia em que todos nada mais serão.
Diante dessa consciência de se tornar o nada, há quem pregue a coragem para hoje e amanhã. De cultivar o amor corajoso, mesmo com o risco de sofrer. Porque somente  se sofre com a ausência da pessoa amada, aquele que nobremente amou. Só se dá importância a quem partiu, se esta foi amada. 
Se coragem também for algo sem sentido, ao menos enquanto tiver significado, algum sentido haverá para quem a significa. 
Coragem pode ser vista como uma  postura positiva diante da realidade da existência, afirmação da essência da vida, da morte, do sofrer e do que é verdadeiramente amar. Ou também como loucura, delírio e desperdício de tempo.
Medo do foi e medo do que será. 
Pode se tornar coragem do que é e do que tornar-se-á ser.


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